Duas da tarde

 

Acordara irritada. Ultimamente tudo a estressava. Passou a tratar mal o porteiro, a colega de turma, os pais. Não tinha paciência pra esperar o ritmo de cada um e batia o pé freneticamente a cada mínima espera a que era submetida. E como era de se esperar, durante aquele dia não foi diferente. Bem… pelo menos até os ponteiros marcarem duas horas da tarde.

Ela movimentava o mouse e digitava algumas coisas em seu notebook quando deixou cair uma lágrima. Estava triste. Porque andava tão rabugenta nos últimos tempos? Onde fora parar a doce e calma menina que tinha uma paz inabalável?! Lembrou-se que com o dia a dia agitado, novo período na faculdade, viagens de fim de semana e com as redes sociais, o Senhor sempre era deixado pra último plano. E na maioria das vezes, o último plano não era cumprido em seu dia. Olhou para o lado e enxergou sua bíblia fechada coberta por uma leve camada de poeira e deu um suspiro profundo.

“Acho que já sei o porquê” pensou, enquanto limpava a poeira em cima da bíblia com uma das mãos. Abriu onde o marcador estava e percebeu que sua leitura do livro de Lucas ainda nem havia chegado à metade. Resolveu desligar o notebook, leu dois capítulos e depois conversou com Deus. Sabia que mais do que ela mesma, Ele sabia como ela andava nos últimos dias. “Tu és o Deus que me sondas, sabe o mais intimo do meu ser e o que se passa em meus mais profundos pensamentos…”, iniciou sua conversa – que durou um bom tempo.

Foi interrompida pelo barulho da campainha. Desceu correndo as escadas e quando abriu o portão, lá estava aquele senhor grisalho, com uniforme azul e amarelo e um carro parado atrás dele.

– Te encontrei em casa hoje, até que enfim! Quase que a encomenda volta pra central, menina – riu o moço.

Ela corou à medida que justificava sua ausência:

– São muitos afazeres, acabo quase não tendo tempo pra ficar em casa.

O senhor aproveitou pra puxar um papo enquanto ela assinava o recebimento da encomenda. Ele não parou de sorrir um só minuto e depois foi embora, dizendo ter muita entrega para fazer naquele dia. A menina voltou para seu quarto muito alegre por ter seus livros comprados pela internet agora em mãos, mas mais ainda, pela alegria com que o senhor interagiu com ela. Pôde notar então que a nossa alegria contagia e edifica as pessoas com quem nos encontramos pelo dia a dia. Assim como em Hebreus diz que a amargura cria raízes e contamina os outros, a alegria também tem esse poder.

Decidiu que levar uma vida de estresse não dava mais e que queria voltar a refletir amor por onde quer que andasse. Queria iluminar o dia de alguém com ao menos um sorriso, assim como o carteiro abençoou a vida dela. Foi simples, foi rápido, mais foi edificante. Concluiu sua oração com um sincero pedido ao Senhor: que sua vida pudesse transbordar amor e não cuspir impaciência. E que no lugar de tantos afazeres, ela pudesse aprender a se dedicar ao que de fato tem valor.

Deus.

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3 comentários em “Duas da tarde

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